InícioCiência“Cada tumor é quase um universo próprio”, diz Jaqueline Carvalho de Oliveira

“Cada tumor é quase um universo próprio”, diz Jaqueline Carvalho de Oliveira

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Coordenadora do Laboratório de Citogenética Humana e Oncogenética da UFPR explica como a ciência tenta decifrar a complexidade das mais de 100 doenças que chamamos de câncer

câncer é a segunda principal causa de morte no mundo e ainda está longe de ser totalmente compreendido. A condição, que pode acometer qualquer parte do corpo, surge quando células passam a crescer e se multiplicar sem controle, ignorando mecanismos que regulam a vida celular. 

As causas para isso vão desde a exposição a agentes carcinogênicos, como tabaco e radiação ultravioleta; infecções por vírus e bactérias, como o HPV e as hepatites B e C; até fatores hereditários ou erros aleatórios na replicação do DNA (molécula que contém as instruções genéticas das células), sem uma causa externa identificável.

Um dos núcleos de pesquisa da Universidade Federal do Paraná (UFPR) que se debruça sobre esses enigmas é o Laboratório de Citogenética Humana e Oncogenética (LabCHO), criado há mais de 60 anos.

 “A oncogenética estuda as bases genéticas do câncer, e a citogenética é focada no estudo dos cromossomos, que é a forma como a maior parte do nosso DNA está organizado dentro das células”, explica a professora Jaqueline Carvalho de Oliveira, coordenadora do laboratório, também integrado pelas pesquisadoras Carolina Mathias, Daniela Fiori Gradia e Enilze Ribeiro.

O LabCHO atua na compreensão das origens moleculares do tumor, mas também no desenvolvimento de novos métodos de diagnóstico e terapias mais precisas. Aproveitando o 8 de abril, data que mobiliza instituições brasileiras na prevenção à doença, Oliveira desmistifica o peso da genética na condição, reforça o poder de medidas preventivas, e conta suas perspectivas como cientista. 

O que mais te surpreendeu quando começou a estudar câncer?


Jaqueline Carvalho de Oliveira | A enorme diversidade. Muitas vezes falamos “câncer” como se fosse uma única condição, mas, na verdade, estamos lidando com mais de 100 doenças. E quanto mais a ciência avança, mais percebemos essa complexidade.

Um tipo de câncer pode se comportar de forma distinta em cada pessoa; dentro de um mesmo subtipo, há variações enormes; e, se olharmos ainda mais de perto, até mesmo as células de um único tumor em um mesmo paciente podem ser diferentes entre si. 

Essa heterogeneidade mostra por que o câncer continua sendo um desafio tão grande: não existe uma receita única para entender ou tratar todos os casos. Cada tumor é quase como um universo próprio, e isso ainda hoje me surpreende.

Qual a diferença entre um câncer hereditário e um causado por mutações adquiridas ao longo da vida? Até que ponto nossos hábitos podem influenciar a expressão de genes ligados à condição?


JCO | Todo câncer surge a partir de alterações no nosso DNA. Mas só em torno de 10% dos casos são considerados hereditários, aqueles em que a pessoa já nasce com uma mutação em genes importantes, presente em todas as células do corpo, e que pode ser transmitida de pais para filhos. 

A grande maioria dos tumores é chamada de esporádica. Eles aparecem devido a mutações que vão surgindo ao longo da vida, muitas vezes influenciadas por fatores ambientais e pelos nossos hábitos. Claro que existe sempre uma combinação entre genética e ambiente, mas o estilo de vida tem um peso enorme nesse processo.

Segundo a Associação Americana para Pesquisa no Câncer (AACR), cerca de 40% de todos os casos de câncer e 44% das mortes pela doença nos Estados Unidos estão ligados a fatores de risco que podem ser modificados, como tabagismo, obesidade, consumo de álcool, exposição excessiva ao sol (radiação UV), alimentação pobre em fibras e rica em ultraprocessados, infecções preveníveis ou tratáveis, como HPV e H. pylori, e o sedentarismo.

Esses fatores podem causar mutações no DNA ou alterar a forma como os genes são organizados e ativados. Em outras palavras, nossos hábitos têm impacto direto no risco de desenvolver câncer e outras doenças. Por isso, investir em escolhas saudáveis, como manter uma boa alimentação, praticar atividade física, evitar cigarro e excesso de álcool, é uma forma poderosa de proteção.

Quais são os testes genéticos e moleculares mais usados hoje na oncologia?


JCO | Hoje, os principais testes moleculares usados no câncer incluem sequenciamento genético de painéis de genes hereditários, focado naqueles genes com maior importância para identificação de mutações germinativas, os painéis de alterações no tumor, que podem sugerir algum tratamento específico ou subclassificação. 

Esses exames são específicos e geralmente são indicados com base no diagnóstico inicial individual. Por exemplo, uma mulher com diagnóstico de câncer de mama antes dos 35 anos de idade e com histórico de tumores de mama e ovário em idade precoce na família teria uma indicação de realizar um exame mais direcionado para mutações que são mais frequentes na síndrome de câncer de mama e ovário hereditário. 

Quais são os principais gargalos para o acesso a esses exames no Brasil?


JCO | No Brasil, apesar de avanços, os gargalos são: custo elevado; falta de cobertura ampla pelo SUS; e desigualdade regional no acesso.

A epigenética, que estuda como fatores externos e comportamentais alteram a atividade dos nossos genes, vem ganhando destaque na oncologia. O que ela revela sobre o câncer? E o que ela ainda não explica? 


JCO | A epigenética é um mecanismo fascinante dentro das células. Ela nos ajuda a entender como o nosso DNA pode ativar ou silenciar genes sem alterar a sequência do DNA, revelando mecanismos de como as células realmente funcionam, e também na origem e progressão do câncer.

Hoje sabemos que a epigenética ajuda a explicar como fatores ambientais e comportamentais podem interferir em como nosso DNA funciona. Porém, ainda temos esse conhecimento muito fragmentado, de exemplos pontuais e que, infelizmente, são usados para generalizar conclusões que ainda não foram confirmadas com resultados experimentais. Ainda precisamos avançar mais nessa área. 

Quais os maiores mitos sobre genética e câncer que ainda precisam ser derrubados?


JCO | Quando penso em câncer e tratamento, o que mais me preocupa são pessoas acreditando em curas milagrosas, receitas caseiras, enquanto hoje temos um avanço enorme no tratamento da maioria dos tipos tumorais. Ou seja, pessoas deixando de seguir recomendações médicas com embasamento científico para seguir indicações disponíveis nas mídias sociais, com o argumento de que a indústria farmacêutica estaria escondendo a “real cura” do câncer.

Mais especificamente sobre genética e câncer, para mim, o maior mito é: “Se eu herdei uma mutação, não há nada que eu possa fazer, e o melhor é nem saber”.  Mito muito perigoso. Mesmo com predisposição genética, encontrar uma mutação não é sentença. Hábitos saudáveis podem reduzir significativamente o risco. 

Além disso, diversas mutações identificadas possuem protocolos definidos de redução de risco de aparecimento do tumor, e podem ser decisivos no diagnóstico precoce e melhoria das taxas de cura.

Se a genética não é uma sentença, em que momento um exame genético muda a vida de um paciente?


JCO | Os exames genéticos podem ser grandes aliados em diferentes momentos da jornada de um paciente com câncer. Em situações específicas, como quando há histórico familiar de determinados tumores ou quando o diagnóstico acontece em idade incomum, eles podem levantar a suspeita de que se trata de um câncer hereditário. 

Nesses casos, o resultado do exame muda completamente a condução: o paciente passa a seguir protocolos de tratamento e acompanhamento diferenciados, e a família também pode se beneficiar de medidas preventivas.

Além disso, os exames genéticos feitos diretamente nas células do tumor são fundamentais para identificar as mutações que surgiram ao longo da vida. Essa análise ajuda a classificar melhor o tipo de câncer e, muitas vezes, abre portas para terapias mais individualizadas, direcionadas às características específicas daquele tumor. Em outras palavras, o exame genético pode transformar a forma como o câncer é tratado, oferecendo opções mais precisas e eficazes.

Existe hoje um debate importante na medicina sobre sobre diagnóstico. Diante disso, o que é consenso: o rastreamento periódico do câncer deve ser ampliado para toda a população ou precisa seguir critérios bem definidos?


JCO | Rastreamento é importante, mas claro que com critérios bem definidos. Os programas de rastreamento recomendados se baseiam em evidências de impacto real na redução da mortalidade, e claro, devem incluir cálculo de custo e efetividade..

Se pudesse escolher uma única conquista da ciência contra o câncer nos próximos dez anos, qual seria?


JCO | Se pudesse escolher uma única conquista da ciência contra o câncer nos próximos 10 anos, seria o avanço e a consolidação dos tratamentos alvo dirigidos, terapias que atacam alterações específicas das células tumorais, poupando mais as células saudáveis.

Um exemplo clássico é o imatinibe (Glivec). Ele revolucionou a leucemia mieloide crônica (que afeta o sangue e a medula óssea) ao transformar uma doença antes fatal em uma condição controlável.

Mais recentemente, terapias alvo contra mutações específicas, como EGFR, ALK, BRAF e HER2, têm mostrado resultados impressionantes em tumores sólidos.

A grande conquista seria expandir essa lógica para um número ainda maior de tipos de câncer, com medicamentos cada vez mais precisos, menos tóxicos e acessíveis. Isso significaria não apenas prolongar a vida, mas oferecer qualidade e esperança a milhões de pacientes.

Neste dia, em que entidades de combate ao câncer reforçam medidas de enfrentamento à doença, qual é a mensagem mais urgente que precisamos ouvir?


Que a prevenção é possível e poderosa e o câncer tem tratamento, muitas vezes com cura graças aos avanços da ciência.

Fonte: Livia Inacio/ UFPR

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