Em ‘Deixe ir’, Fabrício Carpinejar reflete sobre o desapego como ato de coragem e autoconhecimento, e fala sobre o que precisou deixar para se reencontrar
Em mais de 50 títulos publicados, entre crônicas, poesias e reflexões, Fabrício Carpinejar fala sobre amor, luto, relacionamentos, acolhimento e infância. Agora, em “Deixe ir” (Bertrand Brasil), o escritor, jornalista e poeta se debruça sobre o desapego.
O desapego, como propõe Carpinejar, não é um gesto de fraqueza, mas um exercício de autoconhecimento e coragem. Desapegar flutua entre reconhecer os próprios limites emocionais e entender que priorizar-se é uma forma de amadurecimento, não de egoísmo.
Largar o que dói, na perspectiva proposta por “Deixe ir”, é um ato de preservação em tempos em que as pessoas se entregam à falta de reciprocidade e ao silêncio. Em entrevista à Vida Simples, o autor comenta mais sobre a obra e o que precisou se desapegar para deixar que as palavras transbordassem do papel.
O livro vai além do desapego amoroso. Afinal, como reconhecer o que já cumpriu seu papel na nossa vida?
O livro foi escrito durante dois anos. Como se fosse uma correspondência urgente.
Abordo o quanto é difícil sair de relacionamentos platônicos ou imerecidos, em que não existe reciprocidade. Porque há uma armadilha: quem mais se dedicou não quer jogar fora todo o seu investimento e fica refém das promessas. Para não desperdiçar o passado, compromete o seu futuro. E, veja bem, é um passado idealizado, porque não houve dias tão bons para lutar por ele. A pessoa espera uma redenção, um milagre, que nunca acontece. Quanto mais você dá, menos quer terminar
Alguns sintomas da necessidade de se despedir: o isolamento, não sair mais a não ser como casal, o controle da conversa com os amigos e familiares, a falta de iniciativa, a estagnação da carreira e das alegrias pessoais, o silêncio censor aos pensamentos (não falar o que se pensa para não discutir), a narrativa de que só o outro para aguentar você (que se é alguém insuportável).
Psicologicamente, o desapego é cura. E para o poeta, o que ele representa?
“Deixe ir” é um manual do desapego. Mostra que as reconciliações consecutivas e seriadas já são uma prova da dependência. A cada volta, é mais complicado sair de novo. A regra é seguir a intuição. Jamais deve-se voltar a um lugar de onde se esforçou para sair.
Sua coragem vai enfraquecendo por excesso de tentativas. A ponto de acreditar que todos amam assim, com migalhas, e que não existe casamento bom.
Há uma generalização do sofrimento se acostumando com o pior, achando que é uma mandamento da convivência viver sob o jugo da implicância, da grosseria, da crítica, do menosprezo.
Como podemos reconhecer os próprios limites emocionais?
Existe uma mentalidade romântica que nos conduz a grandes equívocos, entendendo o amor como renúncia, perda, cedência, privação, que amar é sinônimo de sofrer.
Daí você perde seus limites de vista e acredita que a pessoa que você mais amou foi justamente a que mais o fez padecer. É um incentivo a morrer abraçado ao algoz.
Amor, pelo contrário, é paz, continuar sendo quem você era antes da relação. Não perder a independência, a espontaneidade, o contato autônomo com os amigos e a família, a independência financeira. Casamento é para agregar, não roubar o que você custosamente construiu em torno de si.
O que você mesmo precisou deixar ir para escrever esse livro?
Afetos sanguessugas, que amavam me odiar, e que eu dava atenção despropositada, irreal, absurda, querendo convencê-los a gostar de mim. Ao lado dessas pessoas, você só acaba se gostando menos.
Valorizo a terapia nesse processo de autodescoberta. A terapia é o espelho da alma. Quando você tem terapia, é como dispor de 5G emocional. As ideias, os arquivos, a vida pregressa na hora. Tem discernimento, preserva contextos, separa momentos. Já quem não tem terapia enfrenta embaraços na comunicação, tudo é truncado, tudo é levado para o lado pessoal, as conversas são tensionadas porque não existe conexão consigo mesmo.
O que você espera que o leitor leve (ou deixe) depois da última página?
Trago todas as relações em que você deve se desligar porque não é desejado ou está com quem não o respeita. Tanto nas amizades quanto no âmbito familiar. Não se restringe ao casamento. Que o leitor entenda que o fim do ciclo não é o fim do caminho. O melhor está por vir.
JULIA CUSTÓDIO/Vida Simples


